A falta que fez falar

7 anos, 3 meses e 17 dias. Esse foi o tempo que levou pra eu voltar ao Rio Grande do Sul e sentir novamente a dor do luto.

Encontrar pessoas queridas e outros conhecidos em um ambiente tão hostil quanto um velório me conecta com os mais diversos sentimentos. Dentre eles, a angústia de não saber lidar com algumas das obrigações familiares mais básicas: o convívio.

Durante esses últimos dias, lidei com tantas sensações, de tantas nuances diferentes que é difícil medir o que me causou mais estranheza. Por difícil, entenda-se que não quer dizer que eu não tenha conseguido, pois de uns tempos pra cá aprendi a lidar com as coisas difíceis.

Se ontem não tive clareza de que precisava chamar o Vinicius e falar sobre a perda de nossa filha, hoje ficou mais do que evidente o quanto isso me fez falta. Sim, a falta da nossa filha. Precisava falar desse lugar de mãe que perdeu uma filha durante a gestação. Precisava ouví-lo como pai que não soube lidar com a perda e quem sabe sua fala poderia ajudar meu cunhado a lidar com o que ainda está por vir. Ainda não tinha pensado sobre o impacto que isso pode ter na relação deles e sobre como desejo que o que aconteceu comigo não se repita.

Hoje mais de uma vez precisei dizer que estive grávida. Que perdi uma filha. Que senti ela dentro de mim. Que fui, que sou mãe. Sempre que preciso repetir isso sinto como se não fosse verdade. Seria um devaneio coletivo tudo que aconteceu? Seria uma projeção minha para pôr fim à relação que precisava se reinventar frente a tantas questões que me rodeavam?

Passado esse tempo cada vez tenho mais dificuldades de retornar ao que era, e nem acho que deva retornar, mas sei que o que aconteceu hoje me conectou com a essência de algo que senti pelos últimos 21 anos e me fez ter vontade de conversar como nunca tive: de forma honesta, aberta, com a sinceridade que os amantes tem um para com o outro.

Espero que um dia ainda possa fazê-lo, pois as palavras guardadas ecoam num grito de silêncio.

Ass. Saudade

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