Parte 1 – Na falta de um nome abrangente como o que se passou

Dia desses me perguntaram: “E tu, quando começou com isso de espiritualidade”? Não sei se importa quando de fato começou, porque às vezes o que importa é quando a gente percebeu.

Pois bem… já contei essa história tantas vezes nos últimos 6 anos, com a mesma riqueza de detalhes e diferentes sensações que talvez (ou certamente) esteja no momento de registrar esses detalhes de forma mais perene a fim de abrir espaço e memória para sentir outras coisas. Assim sendo, voltemos pra onde tudo se iluminou.

Abril de 2015. Machu Picchu. Lua de mel em uma excursão com 14 pessoas. Não me pergunte quem vai passar a lua de mel em um passeio xamânico – sem nem saber o que era xamanismo na época – logo após perder uma filha. Vinícius e eu fomos. Até hoje não sabemos como fomos parar lá. Tempos depois eu soube que existe uma “lenda” que diz que todo mundo que veio de lá, volta pra lá em algum momento da vida… vejamos.

Aqui um parênteses atualizado sobre sensações: a ida a outros lugares antes de Machu Picchu, que deveria ser o ponto central da viagem, me despertou olhares e paixões quando meu coração ainda nem era aberto pra isso, então pouco eu conhecia dessas possibilidades, sobre as cores, a vida, a luz do por do sol na praça das armas em Cuzco. Pouco antes de ir à Machu Picchu, lá pelo 5o dia de viagem, eu já tinha grandes anseios sobre estar satisfeita com a viagem. Coitada… rsrs

A ida à Machu Picchu passa por diferentes templos sagrados e para ir até lá de trem, no meio das montanhas, é preciso se deslocar até uma cidade chamada Ollantaytambo. No caminho existe um outro templo histórico chamado Pisac, a 2.972m de altitude. Paramos em Pisac e um dos passeios foi fazer uma cerimônia de agradecimento aos antepassados, em círculo, a céu aberto numa arena onde 12 discípulos – mestres – seres de luz – se encontravam para tal prática. Paramos pra meditar e a energia era tanta que incomodava o Vinícius, inquieto com aquilo tudo. Victor, o líder xamânico e guia da excursão, pediu um pouco de paciência pra que pudéssemos aproveitar o momento. Eu, intensa como nem sabia que ainda seria, tirei sapatos, meias e casaco no frio de 10o e resolvi me entregar à prática.

Já à noite, devido ao cansaço e todas as sensações da viagem e após uma noite num observatório lunar em plenas montanhas, Vinícius resolveu descansar na suíte. Escolhi um banho de banheira pra relaxar e poder me preparar para o dia seguinte, dia em que iríamos à Machu Picchu super cedo. O banheiro, assim como todo o resto do quarto, era lindo, grande, tinha um hall de entrada e muitas coisas nunca antes apreciadas na minha vida pouco viajada. Tentei relaxar na banheira e em poucos minutos senti algo que até hoje consigo descrever e me arrepio devido à força de tal sensação: sabe quando em filmes de ficção um vento bate e o clima muda? Leia-se a pessoa é transportada pra outra realidade, outra dimensão ou outro tempo? Foi isso que senti. O frio era tanto que minhas pernas congelaram e eu só consegui sair da banheira ajudando a erguer minhas pernas com minhas mãos. Ao sair do banheiro, atravessar o hall e visualizar o mezanino logo em frente, onde tinham duas poltronas e uma pequena mesa, me deparo com a cena que até hoje me volta à memória: me vi ali, sentada, de pernas cruzadas em cima da poltrona, mãos apoiadas nos braços, cabelos loiros compridos como eu tinha na época. Roxa. Molhada. Morta por afogamento ou algo assim. Respirei uma, duas vezes. Pensei ser alguma alucinação pela altitude, me belisquei, e num ímpeto – talvez de parar de enxergar como me foi respondido na última vez em que contei isso, também conhecido como ontem..rs – pensei em desligar a luz que ficava no corredor ao lado. Me dirigi até lá, desliguei. E subi em direção à cama. Ela subiu atras de mim, derrubando roupas, toalhas e tudo que tinha pelo caminho mas que não fazia barulho. Parou ao meu lado de braços cruzados e assim ficou ao lado da cama enquanto eu, catatônica, tentava desligar enquanto seguia em um mantra que era uma mistura de pai nosso, ave maria, clamor, creio em deus, meu deus do céu, eu nem sabia mais orar. Adormeci.

Pouco mais de 2h30 depois, o relógio despertou cedo para seguirmos caminho. Vinícius acordou questionando a bagunça do quarto e disse que voltaríamos após o café pra arrumar tudo. Com insistência eu pedi pra apenas sair do quarto. Coloquei tudo dentro da mala e, sem olhar pra trás, fui até a recepção onde chorei feito criança. Não sabendo lidar com o que estava acontecendo e achando que eu tinha apenas tido um pesadelo, Vinícius chamou o Victor pra tentar me acalmar. Nas palavras dele: esse ser apareceu para te falar algo, mas está tudo bem. Somente seres vivos fazem mal aos outros. Na minha cabeça eu só pensava: como pode estar tudo bem? Eu me vi ali, sentada, morta, afogada. E assim seguimos até Machu Picchu numa das viagens mais lindas e menos aproveitadas da vida até então, com um trem de ferro e teto de vidro passando em meio às montanhas com gelo, rios e grandes colônias sagradas em diferentes tons de verde [clique aqui pra ver um pouco desse trajeto, que infelizmente eu não fotografei, por motivos óbvios], onde a única coisa que passava em minha cabeça era: eu vou morrer nessa viagem. Ao longo do caminho, Victor ainda veio falar comigo e, no guardanapo de papel da mesa que tinha logo à nossa frente no vagão, escreveu uma oração em Quechua, língua inca: Te vigos cosilim… eu te conjuro. [A conjuração de Júpiter é uma oração em latim que em linhas gerais significa: eu te enxergo e te respeito, mas respeito o meu espaço tanto quanto o seu. Tenho o livre arbítrio de deixar você se aproximar ou não] Guardei a oração e segui viagem.

A cada passo em falso nos mais de 2.400m de altura pelas ruínas pouco seguras ou embaixo do paredão de quartzo em que senti levitar na montanha em Machu Picchu, eu gelava e voltava com aquela imagem na cabeça. Na estrada de volta todos dormiam na van e eu mal conseguia respirar de apreensão por andar à noite, em corredeiras de pedra, com gelo na pista, costeando vários rios por mais de 2h de estrada. Chegamos ao hotel. Ao que tudo indica, vivos (rs…hoje consigo rir).

Na última noite de viagem, em um jantar de despedida com todos os amigos da excursão, a Fátima, que seria pessoa importante em momentos seguintes, me questionou o que havia acontecido pois durante toda a viagem ela viu uma menina no meu colo, presente e muito parecida comigo. Só então, depois de todos esses dias e diversas experiências juntos, revelamos que estávamos em lua de mel e que tínhamos a recém perdido uma filha, desejada por mais de 3 anos e ainda muito presente na relação.

Talvez caiba dizer que o que ela disse me acompanha até hoje, assim como já foi dito por várias outras pessoas, de diferentes formas: “tua menina está contigo e vai voltar no tempo certo, nem tu nem ela estavam prontas pra estarem juntas naquele momento.” Mas essa passagem ainda não é sobre ela, nem sobre a importância dela em minha vida.

A volta à “normalidade” no Rio Grande do Sul se seguiu de muita dor velada, muito trabalho, muita ausência de espaços de acolhimento, uma fuga do sentir e um foco no fazer, que assumiu o controle da minha vida e me fez desenvolver uma bursite, ficar afastada do trabalho e completamente sem perspectivas sobre nada. Tomando morfina pra dor aprendi que deixar de sentir é deixar de existir. E eu não desejo isso pra ninguém.

… obviamente seguimos em outro post porque a história da espiritualidade ainda nem começou…

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