Parte 2 – Porque o ascendente em virgem, às vezes, não me deixa fazer algo fora de ordem

Como várias partes da minha vida, tudo que é meio de processo é um tanto confuso. Aquele cisma de que “filho do meio a gente vai levando” me acompanha(va) com certa frequência e naquela época eu sentia muito sobre como conduzir coisas sozinha ou sobre como e quando pedir ajuda. Isso pode ser bom, mas por vezes eu não consigo nem lembrar de como foi passar sozinha por um período tão desafiador e obscuro nesse processo todo após voltar de Machu Picchu. Que não seria o último, obviamente.

Voltar de lá com a sensação de que a vida era muito mais do que trabalhar e acumular riquezas materiais despertou algo em mim que reapareceria tempos depois, ainda bem. Num momento breve de tentativa de cuidar de mim, quando pude voltar a pintar os cabelos (levemente escuros pela falta de tintura durante a gravidez), visitei o Dani aqui em POA, logo após buscar uma gravura emoldurada que tinha trazido de Machu Picchu. Ao me abraçar, ele perguntou o que tinha acontecido comigo e o que eu estava carregando que dava pra sentir uma energia diferente. Coincidentemente (claro que não, mas na época eu estava começando a expandir meu entendimento sobre essas coisas e achava que era coincidência), ele me disse que estava há dias pesquisando sobre a cidade inca e que tinha muita vontade de ir pra lá. Passamos a tarde falando sobre a viagem e tudo que aconteceu.

Poucos meses se passaram e eu entrei na loucura de trabalhar até tarde, de mascarar minha dor na solução de problemas tangíveis, tentando disfarçar o caos de lidar com uma afilhada nascendo prematura, com a depressão do marido por ter perdido uma filha e por tantas coisas que ainda viriam. Uma bursite no ombro esquerdo, seguida de greve do INSS e greve dos bancos me fez ficar sem trabalho, sem dinheiro, sem perspectivas por mais de 8 meses (período de uma gestação como a minha, que nasci prematura).

A segunda parte da história da mulher de Machu Picchu começa aqui.

Parece que o assunto da viagem achava brechas pra voltar à tona (obviamente não era algo que eu conseguia contar pra muitas pessoas naquela época), porém ao contar novamente a história pra uma amiga, eu relembrei da oração escrita no guardanapo e fui procurá-la. Li em voz alta. Nessa noite, ao deitar pra dormir, pouco antes de pegar no sono, ELA apareceu novamente. Só que dessa vez ela não ficou só me olhando ou derrubou coisas, num ímpeto de me sacudir, me puxou da cama colocando a mão por baixo das minhas costas. Fiquei com a marca dos dedos na costela. Não sei se consigo descrever os sentimentos e sensações que se seguiram depois desse ocorrido. Quando o Vinícius chegou pela manhã contei pra ele e, ao mostrar a marca de dedos, incrédulo, ele disse que eu deveria ter me batido ou feito algo, já que obviamente tinha sido um sonho. Sim, eu precisava de ajuda, independente de ser algo físico, espiritual ou o que fosse. Voltei pra terapia. Depois de algumas sessões e de uma desconexão com a forma como enxergávamos tudo que estava acontecendo e também o que não estava, já que mal nos relacionávamos desde a perda, eu entendi que a relação que eu sempre achei que era um porto seguro na verdade estava sendo uma âncora. Algo que me afundava, afogava dentro de uma vida que não me servia mais. A imagem que eu vi era de mim mesma, afogada. Então fez sentido que fosse um espectro meu, me chamando pra voltar à vida que eu gostaria de ter, não a que eu estava vivendo. Quando eu decido isso, sinto fisicamente uma luz no meu peito, como quem volta a respirar, como alguém que passa por uma reanimação*. Me parece que quando sentimos algo no coração, se estamos em paz, é porque é o caminho certo. Aqui cabe um adendo considerável: isso não faz do Vinícius uma pessoa ruim. Durante boa parte de nossa relação, eu não conseguia discutir, porque achava que discutir era brigar, ou colocar meu ponto de vista nas situações e escolher o que queria fazer, pois não tinha dinheiro pra bancar algumas coisas que eu queria e em alguns casos nem sabia exatamente o que queria. Eu não estava aberta pra receber e não sabia pedir. Nossa falta de convivência (por ele trabalhar à noite), trouxe marcas que até hoje me fazem repensar a frequência, os modelos e formas de uma relação. Estávamos em momentos diferentes, nos desenvolvemos de formas diferentes e é normal que mudanças aconteçam, no casal e em cada indivíduo, numa relação que começou aos 16 anos. Nem sempre os dois evoluem para o mesmo objetivo -independente de qual seja – e se isso não acontece, não faz sentido continuar dividindo uma vida.

Nos separamos cerca de 1 ano depois de casar na igreja. Bem no final de semana de Páscoa, um tanto quanto simbólico. No dia em que eu saí de casa recebi pelos menos umas 30 notificações de lembrete de 1 ano do casamento do facebook.

Voltei a trabalhar e tudo me levava à recomeçar, eu já não me reconhecia mais naquele lugar. Em vários lugares, na verdade. A empresa em que eu trabalhava já a mais de 5 anos havia sido comprada por uma empresa em SP. No redesenho da operação me foi dito que não tinha mais lugar ali pra mim (mesmo eu tendo ficado afastada por LER – lesão por esforço repetitivo, olha que sensível da parte deles) e ficar aqui não parecia algo correto já que eu que quis sair de casa. Dois meses depois, mesmo ouvindo que eu estava louca, que não tinha sido criada pra ser desquitada, mesmo sendo julgada por estar acabando com a família, mesmo ao ouvir de pessoas próximas que eu já tinha 30 anos e que tinha tudo na vida (nem cabe aqui rediscutir o conceito de TUDO nesse momento. Não ainda) embarquei pra SP pra recomeçar uma nova vida.

Os 6 meses que se seguiram foram alguns dos mais difíceis da minha vida, reaprendendo a conviver comigo mesma, conhecendo pessoas, reaprendendo a trabalhar em uma nova cidade e uma nova empresa, morando sozinha, sentindo a ausência de tudo que eu conhecia da vida nos últimos 30 anos, mas com um orgulho absurdo que não me permitia demonstrar fraqueza aos que me julgaram fraca por querer apenas viver uma vida nova, renascer. A dor rasgava o peito e então comecei um mergulho em busca de entender e acalmar um pouco de tudo que eu sentia. Mas era muita coisa. Então é preciso reorganizar as ideias e deixar decantar um pouco antes de seguir para a parte 3 (claro que isso tudo viraria uma trilogia né?), pois já sinto mais algumas mudanças acontecendo nessa maré interna que me acompanha.

*Antes que se questione como sei dessa sensação, talvez isso me remeta ao momento em que fui reanimada quando bebê, após ter duas paradas cardíacas depois de ter engolido um broche. Talvez. Só posso afirmar que é uma grande dor, porém uma dor maravilhosa do alívio de voltar à vida.

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