Do afogamento a um novo mergulho ou Parte 3

São Paulo, 2018.

A cidade do barulho, da correria, a cidade cinza, de concreto, e que dizem, onde não existe amor. Até pode ser para pessoas que não conseguem enxergar beleza na simplicidade e nos detalhes. Desde que abri meus olhos para a vida e para o agora, eu passei a enxergar cores, amores, diferentes possibilidades e as mais diversas formas de expressão de arte por onde passei, incluindo a terra da garoa ou a cidade que muitos enxergam como cinza. Não à toa, fui desenhando meu corpo com a expressão de coisas que eu acredito ou que me fazem bem e marcando no mapa e na memória os lugares pelo caminho.

Mais ou menos 2 anos e 8 meses depois de trocar meu DDD pra 011, os caminhos me levaram à subir uma escada que me mostraria meu primeiro ritual de ayhuasca. Parecia algo natural nessa trilha depois de ter passado por Reiki, Tantra, Tethahealing, Umbanda, Constelação, Cinesiologia e mais um tanto de termos, técnicas e estudos que quem sabe um dia eu explique por aqui. Ou não. Posso afirmar que todas me levaram a buscar profundo conhecimento não do que aconteceu na minha vida, ou do porquê ter acontecido tudo que veio antes, mas sobre O QUE eu fazia com isso, qual era a minha parte nisso tudo hoje.

Cheguei nesse lugar um tanto afastado de São Paulo e, a hora que botei o pé pra subir a escada, eu senti exatamente a mesma sensação congelante lá de Machu Picchu: subi sabendo que algo estava prestes a acontecer. Possivelmente foi um dos dias em que mais tive medo em minha vida. Chorei bastante, tentei recuar e desistir, mas era muito longe para voltar sozinha e já estava tarde. Fui muito bem acolhida na casa e conheci pessoas maravilhosas, que até hoje estão na minha vida. Decidi então que eu faria o processo, faria a consagração pra entender o que tanto estavam tentando me mostrar, afinal eu achava que já tinha entendido tudo (olha a pretensão da pessoa…rs).

Já na primeira dose do chá, entendi o que seria. Ao levantar a cabeça e olhar para frente vi ELA de novo, minha já conhecida versão.

Conforme ela vinha andando na minha direção, eu enxergava cada vez mais perto e cada vez mais nítido. Eu sentia muito medo, porque a imagem que eu via era realmente muito próxima de mim. Ela andou na minha direção e quando encostou em meu ombro, eu entendi tudo.

Minha mãe perdeu a mãe muito cedo, em 1965, com 10 meses de idade: teve uma parada cardíaca com 30 e poucos anos e caiu no rio onde lavava roupas. Não sabem se morreu do coração ou afogada. Durante minha vida inteira até ali eu repetia uma frase completamente sem nexo: minha mãe não teve mãe. Como que em sã consciência se fala que alguém não teve mãe? Sou um tanto parecida com minha avó. Parecida a ponto de as pessoas me olharem e saberem quem eu sou. Parecida a ponto do meu avô se assustar quando eu saio maquiada do banheiro pra uma festa, porque ele achou que estava vendo a mulher dele, falecida já a tanto tempo.

Ao encostar em meu ombro ela me sacudiu e começou a me falar sobre a importância de reconhecer a mãe, de reconhecer nossa origem, nossa ancestralidade e respeitar tudo que veio antes da gente. Entender que, mesmo a gente achando que sabe de muita coisa, a gente é muito pequena frente à tudo que existe. Ser pequeno é reconhecer que quem veio antes é maior que a gente, logo, tem mais responsabilidade e conhecimento pra lidar com coisas que a gente nem sempre sabe lidar.

Por muito tempo não foi isso que eu fiz. Eu tinha muita dificuldade de falar com a minha mãe, de me abrir com ela porque eu achava que minha mãe não podia receber mais um problema porque “coitadinha, ela já não teve mãe, então como é que eu ia dividir mais isso com ela”, julgando-a como pequena e não reconhecendo o lugar dela como mãe, afastando mais do que protegendo ela de lidar com minhas questões. Hoje, quando olho para isso, sinto que pode ter sido um dos principais motivos pelo qual minha gestação não seguiu anos antes: eu não estava preparada para ser mãe porque nem filha eu estava sendo.

Depois desse sacode ela ainda reforçou que ela fez o que precisava ser feito e esteve aqui pelo tempo que pode estar, mas que o papel dela se cumpriu. E que hoje eu só estava aqui, porque ela deu à luz a minha mãe, que gerou a minha vida. Ambas por escolha. Então eu deveria ser grata por ser quem sou e por carregar a força que carrego. Pegou nos meus braços e perguntou mais de uma vez: “Entendeu agora o que você veio fazer aqui? Entendeu?” Me ergueu e numa mudança de plano, me deixou no meio de uma tribo indígena, tocando tambor.

Desde então, sigo meu caminho tentando honrar todas as mulheres que vieram antes reforçando a minha vida e escolhendo viver o que quero e posso, com a liberdade de poder escolher, algo quase que inédito ao longo dessas gerações. Ainda lido com a dificuldade de saber exatamente o que quero e a influência da energia masculina e feminina em minha vida, que nem sempre é equilibrada. Também entendo que é natural reaprender a viver, pois a única constante que temos é que tudo muda o tempo todo. Sempre que possível, sigo abrindo caminho para as mulheres que ainda virão.

Nesse caminho de mergulhar, se aprofundar e navegar entre o raso e o profundo, descobri muitas coisas. Talvez a principal delas seja que devemos silenciar os ruídos e ouvir o nosso coração. A ancestralidade sopra intuições em nossos ouvidos e mesmo carregando parte de todos os que vieram antes, somos seres únicos e integrais que merecem viver sua própria vida, lidando com as consequências disso da forma que só nós mesmos podemos fazer. E só é possível fazer isso se soubermos amar a nossa verdade, independente do quão diferente das expectativas dos outros ela seja.

(Sei que até deu vontade de viajar pra outros lugares além de Machu Picchu, então pega essa dica de organização de mapa de desejo de viagens aqui)

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